novembro 15, 2014

O Perfume (Patrick Süskind)

Já fazem alguns generosos meses que eu quis escrever um breve comentário sobre o primeiro livro de romance do Patrick Süskind. Quem me conhece sabe, que além de um universo de poesias, sou atraída também para um mundo de mistérios e estudos sobre a psique humana. E acho que esse será o post mais difícil para se comentar, pois nem todas as pessoas entendem o que as cenas e os capítulos dos livros querem transmitir.

Para a melhor compreensão do leitor com a história do órfão Jean-Baptiste Grenouille, separei um comentário encontrado na internet que foi o único no qual o resenhista soube explicar o que de fato Patrick Süskind, no meu ver, quer passar com os capítulos de O Perfume (1985).


Antes mesmo de abrir o livro, já me intrigava com seu título. Qual o rosto escondido por trás da máscara? Por que “Perfume”? Qual o significado desta alegoria?O primeiro passo foi situar o livro dentro do contexto histórico. Toda a trama corre entre os anos de 1738 e 1767, respectivamente anos de nascimento e morte do herói-vilão que protagoniza a obra.  Isso posiciona a narrativa dentro dos anos que antecedem a revolução francesa (1789), uma época em que a França se tornara apática e massacrada pelos interesses burgueses.  Jean-Baptiste Grenouille, um ser totalmente inodoro , vem ao mundo em meio a podridão de uma peixaria. A mãe abandona-o à morte, mas ele acaba sendo resgatado, enquanto a jovem mãe desnaturada é condenada a decapitação.O Fato de Grenouille, não ter cheiro algum é um indicador de que ele não tem identidade, mas também não compactua com  a podre situação reinante: Ele não tem o “cheiro” que todos têm.Jean-Baptiste se  torna, então,  um herói épico que parte em busca de sua identidade, do seu “cheiro” característico, do seu perfume. O Perfume perfeito.Uma doença que o autor chama de “esplenite”, que viria a ser uma inflamação do baço. Esta doença incomum, mas não sem propósito, tem o objetivo de descrever o sentimento de Grenouille naquele momento. Assim como o coração é o órgão associado ao amor, o “Spleen”, ou baço em inglês, é o órgão responsável pela melancolia para os românticos. Então, quando o autor diz que Grenouille tem uma “esplenite”, ele está dizendo que ele está com uma inflamação de melancolia, um excesso. Grenouille descobre que o aroma perfeito pode ser obtido através de jovens moças virgens. Uma clássica alegoria a pureza. Ele mata então a primeira jovem na tentativa de roubar-lhe o perfume vital.“Esse aroma era a chave para ordenar todos os outros, que não entenderia nada de aromas se não entendesse esse.”Mais adiante o herói demonstra sua indignação diante dos modismos:“Porque se precisava de um novo perfume a cada estação?”Finalmente Grenouille revela seu grande desejo:“Ser um grande alambique que inundasse o mundo inteiro com os destilados por ele mesmo criados…”Esta passagem demonstra que o grande sonho de nosso herói é ser um líder, um catalisador, uma guia para uma França desorientada e fétida.Jean-Baptiste toma consciência de sua insuficiência. Grenouille volta-se para dentro de si mesmo em busca de respostas. Queria “ser” ao invés de “ter”:“Queria externar o seu interior que ele considerava mais maravilhoso de que tudo que o mundo externo tinha para lhe oferecer…”Ele se isola, então, em uma caverna a fim de encontrar a si mesmo. A caverna é uma alegoria ao próprio eu:“Abriram-se os escuros portões do seu interior e ele entrava”.Na caverna Grenouille organiza seus pensamentos, seus odores e de lá ele sai pronto para fabricar o aroma perfeito.Ele vai parar em Montpellier e encontra um cientista  o marquês de la Taillade-Espinasse  que acredita que a terra possui fluidos mortais e o ar fluidos vitais, ou seja, quanto mais próximo da terra mais mortal, quanto mais alto mais vital.  Grenouille inventa que foi preso por seqüestradores durante sete anos num poço. O que leva o cientista a afirmar que o estado deplorável de Grenouille é a prova de sua teoria. Com esta passagem o autor afirma que até a ciência pode-se deixar iludir ou enganar.Lá Grenouille vai trabalhar numa perfumaria e começa a matar jovens para retirar-lhes o fluído aromático vital.Ao final, Grenouille mata 24 moças e mais uma especial, filha de um homem rico que ocupava o cargo de vice-cônsul, ela é a que tinha o melhor perfume. Com elas ele fabrica vidros de um perfume capaz de inebriar as pessoas.A trama é desfeita, ele é descoberto, preso e condenado, mas no dia da execução ele faz uso do perfume e toda a população reunida acaba vendo-o como um Deus e uma orgia sem controle toma conta de toda a cidade. As acusações sobre ele são retiradas e ele vai embora. Grenouille conseguiu o que queria tornar-se uma espécie de Deus graças ao efeitos do perfume que finalmente conseguiu criar. Mas porque ele não está satisfeito? Porque sempre que algo novo surge, um novo ideal, um novo objetivo, logo tudo é distorcido em favor de uns e de outros e por fim as coisas são abafadas e tudo fica por isso mesmo. A luta pessoal de Grenouille parece, mas só parece, ter sido em vão.Numa única passagem é possível resumir quem é Jean-Baptiste Grenouille:“Ele realizara o feito de Prometeu”Ele trouxe a chama divina ao homem e mais, ele a colocou no seu interior. Grenouille foi maior que Prometeu.O protagonista vai até Paris e se entrega a um final dramático e fortemente alegórico. Grenouille se encharca do perfume que usou para escapar à execução e é devorado, literalmente, por um bando de mendigos, assaltantes, prostitutas, desertores e jovens desesperados. Ele é despedaçado, consumido por eles, e dele nada resta.  Qual o significado desta morte horrível?Pode-se ter a falsa impressão de que o autor queira afirmar que os idealistas são consumidos pelas massas ou pela podridão que o sistema produz. Mas as últimas linhas do texto nos faz pensar em algo diferente.“…seus corações estavam bem leve s(…) . Pela primeira vez , haviam feito algo por amor”Aqueles malditos que os despedaçaram, na verdade  não o mataram simplesmente, mas sim se alimentaram dele. Nutriram suas almas com o perfume de Grenouille, se encheram com seus ideais que eclodiram mais tarde na revolução francesa.

Incrível, não  é? Patrick a todo instante me surpreendia e o final não poderia ser outro. Li muitos comentários que falavam muito mal da obra de Süskind, pelo fato das pessoas não entenderem o que esse fim trágico poderia representar. Interessante seria, que muitos se pusessem a despertar o senso crítico e ler com cautela os “porquês” desta obra. O fim do comentário deixa clara uma das morais da história do órfão Grenouille: “(…) os idealistas são consumidos pelas massas ou pela podridão que o sistema produz”.


Devo lembrar-vos também que a versão do livro se transformou em filme no ano de 2006 e foi dirigido por Tom Tykwer. Jean-Baptiste fora interpretado pelo brilhante Ben Whishaw
* Trailer do filme – aqui

Au revoir.
 
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