O poeta realmente morre?

Vi da janela do meu quarto centenas de pessoas acompanharem o cortejo. Eu não sabia. Era o velório do senhor José. Idoso de oitenta e cinco anos, morava sozinho num quartinho do lado da praça central da cidadezinha. Ninguém chorou. O senhor José não tinha amigos, parecia que todos estavam ali por obrigação. Cinco homens seguravam o caixão que não estava coberto por flores. Os homens até resmungavam sobre o peso do tal senhor que estava causando incômodo as “juntas” deles. Resolvi acompanhar tal caminhada. No mesmo instante passamos pelo bar do Paulo, e os bêbados dali não se importaram. Pelo contrário, acrescentaram doses e doses de cachaça com um pingo de limão em seus pequenos copos. O ardor da bebida causava chamas nas suas aparências; eram homens tão impuros quanto à alma vazia de um psicopata que diz ter vida injusta e tira a vida de inocentes que não têm absolutamente nada laçados com os problemas por ele vividos. Bebida. Ninguém ali se importou. Aquele senhorzinho que no caixão se encontrava, ia sentar no quinto banco da praça todos os dias; segurava seu jornal, e lia a mesma notícia desde a última década por ele vivida. Essa rotina era feita e acompanhada repetidas vezes pelos moradores. Ao entardecer pegava seu bloquinho de folhas, e com suas letras tortas escrevia a poesia. Poesia que ninguém via e lia. Poesia guardada no seu interior, mas que ele a levava aonde quer que fosse. Senhor José… O sol ia se por e ele voltava pro seu casebre. Preparava o seu café, e assistia o jornal das sete. Não entendia o que ali acontecia. Desligava a TV pressionando o botão vermelho. As sete e cinco ele ia deitar. Mas quem disse que dormia? Colocava sua mente pra pensar. Às sete e meia levantava da cama acendia o candeeiro, pegava seu bloquinho e começava prosear. Começava a prosear sobre a prosa, a poesia, a solidão, a magia, as almas, a rotina, os humanos, os porquês, os livros, os jornais, os bêbados, os escritores, as mulheres, as prostitutas, a natureza e por fim o que ele realmente era. Senhor José foi embora. Senhor José, levou consigo a poesia. E no final daquela tarde o coveiro abriu sete palmos do chão, e colocou cuidadosamente o Senhor José para dormir eternamente. Ninguém jogou flores sobre o mesmo; ninguém o aplaudiu. Ninguém o reconheceu. Talvez ele não precisasse. O coveiro jogou terra, muita terra. E tapou os olhos do poeta, calou o poeta. Todos viraram as costas e voltaram sorrindo para as suas casas. Pronto. Rotina reativada. Menos um na população.

Mas ninguém sabia que o poeta não morre. Senhor José sempre esteve ali, sempre. Nas ruas, nos bares, no brilho junto com os candeeiros, nas folhas, na caneta, no café, no quinto banco da praça, nos jornais, nas prostitutas, nas mulheres, na cachaça. Ele fora poesia. E quem foi que disse que a poeta morre? Engana-se. Ele está aqui ou acolá. Somos o senhor José.