Hyago Carlos: o conflito poético de ser em si

"a tormenta de anteontem
fez
a chuva de outrora parecer
uma garoa
(...)"



Entender a poesia, de fato, é algo que nem todos - ou ninguém -, poderá fazer; no entanto, em cada passo que damos, encontramos pessoas que de alguma forma sentem a verdadeira poesia. Assim, eu muito me alegro em publicar a terceira entrevista que realizei especialmente para o blog.


Hyago, 22 anos, graduando em Serviço Social. Pesquisa interceccionalidade, teoria crítica racial, feminismo e cultura; escreve poemas e também cozinha <3

Me sinto extremamente honrada ao escrever esse post. Hyago Carlos é um dos poetas mais incríveis que eu tenho o prazer de ler e conviver. Reservamos um tempo na nossa agenda e sentamo-nos para conversar. A real é que a palavra "entrevista" até chega a assustar; por isso acredito que apenas conversamos, se assim posso dizer, rs.

Antes do convite que fiz ao mesmo, fiquei com receio de que eu não soubesse tocar a entrevista, ou melhor, a conversa. Me enganei. Foi tudo tão lindo que chegamos a nos emocionar.

Pois bem, Hyago conta que escrever é o mesmo que preencher o vazio e as suas inspirações apenas eclodem com o viver - variando inclusive de acordo com o humor. "As melhores poesias surgem com o ódio e até desilusões amorosas", comenta. Além disso, H. tenta passar as suas referências nacionais e internacionais na poesia (e na arte como um todo; espera que daqui a pouco conto) para a sua irmã, Iara, de apenas oito anos.

No Brasil, Adélia Prado é a musa poética dos seus dias. Ele conta da relação que a poeta faz entre a erotismo, casamento, amor; e como tudo o deixa tão apaixonado. Vamos ler a poesia da autora citada, abaixo? Então vamos.


Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva. 
Texto extraído do livro "Adélia Prado - Poesia Reunida", Ed. Siciliano - São Paulo, 1991, pág. 252.



E quem disse que música não é poesia? Gal Costa consegue transformá-lo de tal forma que nem ele soube me explicar direito; assim como Elza Soares e a maravilhosa Ana Carolina. E, ah, eu não poderia esquecer das suas influências internacionais. Para Hyago, Audre Lorde possui uma poesia intimista, sabe? Lorde consegue transmitir suas verdadeiras emoções nos versos, consegue ser intensa assim como Alice Walker e a insubstituível Marilyn Monroe

A boba que vos escreve ficou bem feliz em conhecer o trabalho de mulheres que nunca tinha ouvido falar. É uma delícia essa troca. Poesia é vida. Admirar os detalhes do nossos dias e também compartilhar aquilo que nos liberta do interior; um desabafo por amor.

Por último, fiz uma pergunta que me destruiu (pro bem ou mal) por dentro e que, de certa forma, abalou nós dois no meio da conversa. "O que se sente enquanto escreve?". Como poetisa, eu nem sei como consegui abrir a boca para pronunciar. Ou melhor, como me entreguei para tentar também responder. Doeu em mim e nele, mas a resposta saiu:


"Enquanto se escreve [e um silêncio longo se fez na conversa]. Há um estado de graça. É como esquecer do próprio eu e do próximo; é um nirvana poético, uma necessidade de vida."
                                     Hyago Carlos




Meu coração sorri até agora. Espero muito que tenham gostado! 
Quer acompanhá-lo também? 
*A poesia no início da publicação é de autoria do Hyago


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