o perfume (Patrick Süskind) - um texto sobre a história


Lembro bem que anos atrás fiz um post sobre essa obra do Patrick aqui no blog. Dentro desse tempo li também outros artigos, reli trechos do livro e me aventurei com a adaptação trazida para o cinema em 2007. Você já assistiu ou leu? Já ouviu falar dessa obra? Hoje vamos conversar sobre a história inteira e sobre como cada cena foi vista pelo meu coração.

        A escrita do autor é incrível e fácil de ser compreendida. Gostei disso. Fiquei com um desejo imenso de ler outras das suas criações. Süskind nos leva até a realidade com muita facilidade; as suas palavras nos fazem sentir e recriar qualquer situação que ele coloque diante de nós. A Paris do século XVIII, a sociedade movida por interesses, o fedor que imperava entre a Rue aux Fers e a Rue de la Ferronnerie; tudo. No sentido trazido por ele, a história se passou em tempos anteriores à Revolução Francesa e podemos ver bem alguns indícios que caracterizaram a época.

Assim, não segui "a ordem natural" e assisti primeiro ao filme. Porém, após ler o livro fiquei contente pelo Tom Tykwer, diretor da trama, ter sido fiel aos versos do autor. As cenas da França imunda fizeram meu estômago embrulhar e tudo foi muito bem demonstrado nas horas do filme - já aproveito para deixar uma canção que se passa por lá e para ouvir é só apertar o play.

a trilha sonora do filme é como um completo abraço.

Jean-Baptiste Grenouille nasce em meio a podridão parisiense. É abandonado após a morte da mãe e tempos depois pelas suas cuidadoras. Nasce com uma característica que o faz diferente não só das crianças da sua idade, mas de todos os seres que ali habitavam. Grenouille tem o olfato aguçado. Pode sentir cheiros a quilômetros e com uma precisão admirável. Quando teve a oportunidade de finalmente ir para as ruas movimentadas da cidade de Paris sentiu algo diferente, outro aroma talvez. Não existia somente a podridão; ele sentiu coisas a mais. Numa ida dessas até a movimentada cidade sentiu o aroma diferente em uma moça. Ao contrário de tudo dali, o cheiro era bom e ele a seguiu. Ela percebeu e se assustou. Numa tentativa de a calar, a fim de que a situação não chamasse atenção, acabou sufocando-a sem querer. Ainda se sentindo imerso por tanto amor ao seu aroma e como um "scape", tendo-a em mãos, ele a cheira cheira cheira - feito um cão abandonado buscando algo -, até que o cheiro some fazendo Jean perceber que o aroma doce de alguém nunca é permanente, afinal ele também some devagar. Essa questão o deixa infeliz já que ele percebeu que nem ele próprio possui algum aroma.

Fica bem claro no filme o quanto Jean-Baptiste é insensível às coisas do mundo. Todas as façanhas comuns para ele são desconhecidas. Jean desconhece cuidados pessoais relacionados à higiene, ao abraço e a fala, por exemplo. O menino não possui nenhum conhecimento sobre o presente e o passado. Nesse sentido, à época, Paris estava munida de grandes produtores de perfume e o personagem se aproxima de um deles. Observava naqueles vidros das perfumarias a possibilidade de preservar os aromas. Parte então para o pensamento de que ele deveria criar o perfume perfeito para que todos pudessem além de sentir, olhá-lo também com a ternura que ele nunca recebeu, o puro amor.

Grenouille vive encapsulado em si mesmo "como um carrapato", e não é capaz de dar nada ao mundo: nem um sorriso, nem um grito, nem um piscar de olhos, nem o seu próprio cheiro. Sua verdadeira monstruosidade reside, mais que tudo, em sua incapacidade de se dar ao mundo; seu verdadeiro delito consiste em existir não vivendo, mas roubando dos outros a existência, subtraindo-a - como um carrapato - daquelas criaturas raras que inspiram amor.

O último assassinato cometido por Jean-Baptiste foi marcante, mas na minha opinião as últimas cenas foram bem mais e não deixaram a desejar. O autor seguiu a linha do mistério descrito e foi além do que esperamos - ou do que eu esperava. O último assassinato, seguido da retirada do aroma da mulher, fez com que o perfume perfeito fosse criado. Baptiste, finalmente, foi amado por todos. Conseguiu unir todos os aromas possíveis até criar o Amor. Baptiste foi visto como o verdadeiro Deus descido dos céus. O perfume fez o homem sentir o Amor, fez o homem conseguir mirar o carrapato Jean-Baptiste, antes desconsiderado. Na trama, o auge do amor foi mostrado com uma longa cena de nudez. O auge da sociedade, foi no momento onde eles sentiram o amor de verdade. Bispos, freiras, vendedores; todos fizeram amor. E mais pouco. Um pouco. Pouco. Muito. Se fez silêncio.

Grenouille então percebeu, em um segundo de silêncio consigo em meio aos gemidos alheios, que as pessoas estavam se amando e que, em verdade, ele era vazio por dentro. Sim, pela primeira vez ele percebeu que a sua vida não tinha sentido algum. Lembrou de todas as mulheres que matou. Essa cena me marcou porque foi aí que o personagem viu a realidade como ela mesma. Talvez essa cena foi a mais cruel para ele. Mais do que a falta de amor ou o desprezo que ele sofreu em uma vida.  No mesmo ato, decidiu ele mesmo se banhar com o perfume. Grenouille morreu sendo devorado por pessoas, literalmente; morreu sendo devorado por ele mesmo, por consequência do que inventou sobre a para si. Por um ato de amor.



*
Tenho a bela sorte de ter a edição original assim que chegou no Brasil, em 1985. Ao reler o livro e rever o filme percebi o quanto essa obra ganha no quesito detalhes. Cada um interpreta de um jeito, sente de um jeito e hoje quis mostrar um pouco de como os versos de Patrick pareceram por cá. Olhando bem, o bonito da arte é justamente todos os sentimentos que ela nos desperta, não é mesmo?


-

Ficha do livro
Título: o perfume - história de um assassino
Produção Editorial: editora Record
Número de páginas: 263 páginas
Minha nota para o livro: 5/5



See you.

5 comentários

  1. Eu tenho MUITA vontade de ler o livro. Assisti o filme e achei incrível, mas tenho certeza que o livro deve ser bem mais cheio de nuances e detalhes...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. fiquei com a mesma vontade quando assisti somente ao filme! e sim, o livro tem detalhes especiais. é bem legal recriarmos histórias através da leitura, né? quando ler compartilha comigo se gostou ♥

      beijos!

      Excluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Li esse post como quem não Podia respirar,lembrando cada detalhe por você descrito. Uma verdadeira obra prima, tão sensível e profunda. Tão Tocante a alma. "Grenouille morreu sendo devorado por pessoas, literalmente; morreu sendo devorado por ele mesmo. Por um ato de amor."uau!

      Excluir
    2. coisa linda de se ler, Dállete! obrigada mesmo. a história é intensa, né? tentei escrever de uma maneira breve, mas não consegui. sinto a mesma coisa que você, a vejo de forma sensível e profunda (muito profunda até). lê a obra sim, você vai gostar muito - quando assim fizer me conta o que achou ♥

      beijos!

      Excluir

poético diário