maio 27, 2020

prosa, verso e memória com Minne Santos

a primeira vez que conheci a Minne foi na Universidade, ela do Jornalismo, eu do Serviço Social, e essa foi só uma das coincidências que nos uniu. depois descobri que conhecíamos pessoas em comum, depois fomos para diálogos audiovisuais em comum, e foi só nesse último acontecimento que vi mais das criações que ela produziu. 

a Minne tem um dos olhares mais sensíveis que a imagem me mostrou. os universos por ela criados, as cores, a poesia que ela deposita em cada clique possui um significado incrível e é impossível não sentir um abraço quentinho com as séries que ela partilha por meio da imagem e do audiovisual. isso me faz acreditar demais na força que a arte e histórias têm. quando pensei em retornar com prosas aqui no blog a Minne estava em meus pensamentos. de várias maneiras eu espero que vocês se sintam abraçados por tudo o que ela citou e criou também. 





ao mesmo tempo que vejo a sua relação com a fotografia, percebo que a literatura também significa muito pra você. ela te ajudou a construir o seu olhar na imagem? se sim, qual obra foi essencial para você nesse sentido?

a literatura guia muito o meu olhar, de diversas formas. é, sem dúvidas, uma das minhas maiores influências, a que me mantem nessa constância de criar imagens, mesmo que somente na cabeça, e que me coloca sempre num percurso de buscar e enxergar narrativas em tudo quanto é canto. acredito que uma das obras que mais me marcaram nesse sentido foi a de Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira. desde que a li, e que me deparei com aquela frase (Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.), tenho me esforçado pra manter esse meu olhar mais atento, mais presente. é um lembrete diário que eu trago comigo.

do ponto de vista político, O Mito da Beleza, de Naomi Wolf, foi uma das que mais me fizeram refletir sobre a retratação da mulher, me abrindo os olhos para muitas questões no assunto. da perspectiva visual mesmo, não consigo precisar uma que tenha sido decisiva, mas me vieram algumas marcantes em mente agora. uma delas eu venho lendo: o Da Poesia, da Hilda Hilst. as palavras vão tomando forma de um jeito que é muito lindo e me inspira demais.

A Desumanização, de Valter Hugo Mãe, é outra. lembro que li esse livro de uma forma muito lúcida visualmente. a narrativa do Mãe é muito poética e auxilia nisso. conseguia enxergar a fotografia do livro de uma maneira bem clara e as imagens que eu via eram muito bonitas, guardo até hoje na cabeça.

outro que também lembro de ter me impulsionado mais pro lado imagético da coisa foi Asterios Polyp, uma HQ do David Mazzucchelli. na época, fiquei apaixonada pela forma dessa obra: as cores, os traços, todos os elementos carregando um simbolismo muito forte (e de uma maneira que até então eu não tinha visto em nenhuma outra) pra dentro da história.


Minne é diretora do documentário Sangue-Mulher ao lado de Mik Moreira e Janderson Felipe. conheci a produção em um evento muito especial do Serviço Social do Comércio, o SESC, aqui em Maceió. no dia em que eu assisti a obra lembro de ficar emotiva, principalmente com a fotografia em planos detalhados que contaram as consequências da violência sofrida por mulheres alagoanas. 

mirar e discutir a obra me fez questionar se o envolvimento com a elaboração do filme cooperou para consolidar os traços de Minne na imagem e ela respondeu assim: "todo o processo, desde a produção até a exibição do curta, contribuiu de alguma forma pra construção do meu olhar na fotografia (e na vida), que eu penso que esteja sempre nesse ciclo de reconfiguração. foi uma experiência muito única e que colocou de forma ainda mais incisiva os debates em torno das questões de gênero na minha vida. sou muito grata por ter feito parte e pelas tantas trocas que vieram com e a partir dela".

um texto escrito por Tatiana Magalhães compartilhado na janela do audiovisual alagoano, o Alagoar, traz a crítica da produção mencionada. recomendo demais a leitura.



"eu hoje sinto de forma mais consciente que a fotografia ultimamente tem sido muito um ponto de encontro comigo mesma"


é notório o quanto você poetiza os seus projetos por meio de gestos, sombras e principalmente cores na fotografia. o que você sente ao significar sentimentos por meio de retratos?

eu hoje sinto de forma mais consciente que a fotografia ultimamente tem sido muito um ponto de encontro comigo mesma, uma forma de me manter presente, coisa que eu tento buscar e que, pela correria dos dias, tem sido difícil de alcançar nos outros aspectos da vida. pela arte, e principalmente pelo autorretrato, eu tenho conseguido fincar mais os meus pés na realidade, me perceber e manter mente e olhar atentos no meio de tanto delírio, de tanta informação. chega a ser um pouco contraditório, mas é mais ou menos como tem funcionado pra mim e eu venho me apegando a isso. acredito que, de certa forma, é o que acabo imprimindo também na imagem. nem sempre esse processo se dá de maneira precisa e clara pra mim, mas, ao final de tudo, é reconfortante perceber a influência desse ciclo e os artifícios que me ajudam a expressá-lo. 


a Minne cita que a sua inspiração vem muito das coisas que estão ao seu redor. isso inclui a natureza e a casa de sua avó. "o toque de dona Alice sobre as coisas, as suas cores, o cinema, a literatura e a dança, principalmente", completa.

acompanhe as criações da Minne lá no instagram.

vejo vocês em breve.

6 comentários

  1. que imagens lindas e sensíveis. amei o trabalho da minne e amei que voltou com as entrevistas ♥

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    1. feliz que gostou de tudo, amiga! e sim, o trabalho dela é muito sensível... sou apaixonada.
      obrigada pelo carinho, viu? ♡

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  2. Que trabalho bonito e sensível! Adoro conhecer os processos criativos e as referências dos artistas. Adorei a entrevista!

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    1. é tudo tão especial, não é? fico contente que tenha gostado dessa prosa <3

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