agosto 18, 2020

escrita e fotografia que atravessam; uma prosa com a alagoana Nathalia Bezerra

passa o tempo e o meu coração se alegra por conhecer o trabalho e a poesia de tantas pessoas incríveis pelo caminho. dia desses eu comentava em casa o quanto foi bom me aproximar da imagem alagoana nos últimos tempos. dentro dessas descobertas fui conhecendo as criações de mulheres gigantes que me movem até hoje de múltiplas formas, sendo a força para continuar fotografando a mais potente. hoje, em mais uma prosa aqui no blog e na semana que marca o dia mundial da fotografia, converso com Nathalia Bezerra sobre os seus processos dentro da imagem, bem como a sua história com a fotografia, além de comentarmos sobre a sua relação com a escrita; e como o seu olhar foi sendo transformado ccom a pandemia.


pessoalmente falando, senti que a minha relação com a arte passou por diversas fases ao vivenciar uma quarentena. para a Nath, esse processo aconteceu de maneiras plurais também e, segundo ela, o autorretrato foi o grande precursor para fazê-la ressignificar o seu processo com a imagem. 

"lembro de, em determinados momentos, ter pensado que sentia saudade de fotografar pessoas lá fora: mas quando eu me dei conta de que havia, também aqui, um corpo. uma imagem. tinha eu. tinha um mundo-casa, tinha um corpo-quarentena. tinha desde os cantos dos móveis que vejo todos os dias até as paredes e as cortinas. eu sentia que precisava de uma outra coisa, e que essa outra coisa que eu iria construir seria completamente diferente de tudo o que eu tinha feito, visto ou sentido até então. nem sei explicar, mas senti a necessidade de recomeço de forma muito pulsante e resolvi por abraçar isso", conta.

viver esses instantes despertou em Nathalia o sentido de arquivar todas as fotografias feitas por ela até então, abrindo espaço para vivenciar esse processo de forma intensa refletindo sobre o que, de fato, significa o recomeço.

só é possível recomeçar porque tem história e memória andando junto comigo, e eu sou imensamente grata por cada pessoa que esteve comigo construindo essas narrativas.  hoje, sinto meu coração acalentado por ter abraçado minha urgente necessidade de mudança e de recolocar os móveis do lugar. de fazer tudo de novo. eu recomeçaria outras várias vezes, se sentisse a necessidade. acho que não mudar me dá mais medo do que a mudança. 


me envolver com essas prosas desperta sempre algumas questões e normalmente elas me fazem pensar sobre esses recomeços e começos, mas precisamente sobre o passado de quem cria. me pergunto sobre como a arte brotou em vidas. se foi na infância, se foi semanas atrás. se de nenhum desses jeitos... como foi? isso acabou se estendendo à prosa de hoje.

Nathalia partilhou que a imagem surgiu nela a partir da memória do sertão alagoano, mas precisamente lá na cidade de Delmiro Gouveia, terra de onde sua família começou a escrever histórias. terra de caminhos feitos por seus pais, por seus avós e bisavós. "eu lembro de ter sentido a necessidade de registrar os lugares e os cantinhos que gostava de ir lá, porque passava muito tempo sem vê-los quando voltava à Maceió. comecei fotografando os mandacarus. o chão que tanto desenhava as suas sobras e sombras. tenho-as guardadas com muito carinho, pois é a forma que encontrei de materializar algo mais próximo de saudade e de pertencimento", diz.






dos registros sertanejos ao centro de Maceió, a fotografia que atravessou a história de Nathalia também começou a retratar pessoas seguindo um princípio afetivo. "as primeiras pessoas que fotografei foram amigas próximas e pessoas queridas. e desde por volta de 2018 que comecei a trabalhar com fotografia, a conhecer e fotografar outras pessoas. de forma mais específica: comecei a fotografar mulheres, e tenho sentido uma potência imensa de poder entrar em contato com tantas imagens, tantas histórias e tanta narrativa para contar".

diante da sua proximidade cada vez mais íntima com a fotografia, Nath comenta que o autorretrato surgiu de forma mais urgente durante a quarentena, tempo que ela passou a ser objeto e instrumento da sua fotografia proporcionando uma experiência completamente diferente das outras, e ao mesmo tempo que transita sobre a mesma coisa: a afetividade com a imagem, com ela mesma e com a poesia que foi brotando desse contato.

nessa quarentena também ficou bem marcado pra mim algo de um início de experiências audiovisuais de forma mais marcante, porque encontrei pequenos trechos de vídeos que eu tinha guardado, e até então não havia usado. quase como se fosse uma redescoberta das memórias que guardei [...] misturar palavra, escrita e fotografia foi algo que começou e que demarca muito pra mim um processo de tentar elaborar algo do sentimento de quarentena mesmo. não apenas isso, mas principalmente sobre esse momento tão sem-palavra que a gente vive 


sobre o processo de se encontrar nas palavras, a partilha da Nathalia foi tão afetuosa e forte que achei injusto adaptar qualquer palavra que fosse. então, cá estão as suas palavras e sentimentos sobre a escrita.

"eu escrevo como se fosse a única coisa possível de ser feita. e quando digo isso é porque relembro e cultivo minha relação com a escrita desde muito tempo, seja em cadernos, diários, ou nas bordinhas dos livros que leio. guardo todos os meus cadernos, bloquinhos de nota, anotações em folhas soltas. a escrita me aparece como um subterfúgio para sentir. 

tem me aparecido assim desde que me lembro de ter começado a me relacionar com ela. e desde então, nunca parou. tenho pausas, momentos de silêncio. momentos que não consigo escrever, que sinto que não consigo dizer. e às vezes escrevo sobre isso, também. tento escrever sobre o não-dito. sinto como tem algo inesgotável na escrita porque a palavra não consegue dizer tudo. é um sentimento que às vezes me movimenta a escrever mais, e às vezes me provoca. por fim: me devora. 

a escrita me aparece sempre de forma súbita: eu nunca me programo, não me sento à cadeira pensando em escrever. ela vem. chega. ocupa os espaços. sinto uma súbita e incontrolável vontade de escrever que é como se respirasse pelos dedos, ou como se nos meus pulmões tivesse todas as palavras e coisas que já quis escrever. talvez pela sensação súbita com que a escrita me invade, que eu me sinta, de certa forma, vulnerável: meus cantos todos abertos. metáforas que talvez nem eu saiba o que significam. sensações e memórias de uma vida todas entrelaçadas em cadeias de palavras. é um mundo envolvido em palavras, sabe?  

no meio de tanto verbo, de palavra-palavra, de aliterações possíveis, de metáforas amassadas por entre os cantos: mas tem algo nesse jogo que me habita, talvez. e que desabita/des-habita (às vezes o corretor ortográfico invalida meus neologismos) também. penso também como a fotografia tem sido, ultimamente, uma forma potente de escrita, que ultrapassa a palavra. ou que exatamente por não ter palavra alguma, desafia algo visível/invisível".


quando li o verso “arte que desloca as dores para outros lugares” me senti cheia de sentimentos que me habitam. a partir daí quis muito conversar com a Nathalia. foi por cada palavra forte, por cada poema que habita alguma história, por cada palavra atravessar sentimentos de verdade. esses momentos de puro encontro me fizeram pensar no que ela sentia ao criar e a reposta foi

eu sinto como se estivesse voltando de um mergulho: algo perto daqueles momentos em que a gente respira com espanto e com alegria de sentir o ar. ou com alívio da pele molhada voltando à superfície. mais anda: é aproveitar a sensação que dura de estar imersa em algo e quase distante do mundo. é jogar-se de corpo e alma aberta em algo azul e sem nome 

ainda completou que quando está imersa em seus processos criativos sente o deslocamento de várias coisas ao mesmo tempo, como um respiro longo; um suspiro breve. não como um afogamento, mas um mergulho pela ideia de sempre voltar à superfície. lendo toda essa prosa parece que todo esse mergulho envolve a tristeza por escrever sobre esses sentimentos, mas Nathalia diz que não acha que escrever seja triste - por mais que o texto ou a fotografia possa parecer. "acho que me sinto mais triste quando não consigo dizer nada. quando não consigo escrever. quando não encontro palavra. eu sinto que mesmo que saiam palavras que por vezes são lidas como tristes, para mim não são, sabe? a escrita acaba assumindo esse lugar de deslocamento de alguma forma que não se ocupa de tristeza ali naquele momento de criação. é algo meio catártico, talvez", comenta.

no meu olhar pessoal, e concordando com palavras da Nath, entendo também que o encanto mora nas diversas interpretações e possibilidades de admirar uma imagem, uma estrofe, uma criação.

"não acho que seja necessário ter intenção ou compromisso com uma fala linear, em cadeia, que faça sentido. pelo contrário. eu gosto dos enigmas que as coisas criam. nos nós e nas coisas que não entendo. e uma das coisas que mais gosto de quando eu estou criando é exatamente isso: não entender. porque à medida que tenho a oportunidade de olhar, ler ou ver novamente aquele trabalho, pode se tornar uma outra coisa. me provoca muito mais quando não entendo", traz.





todo esse misto de sentimentos coloca a arte da Nathalia no coração de outras pessoas. é nítida toda essa conexão entre ela e entre histórias porque a poesia não para nunca de pulsar. ela não para de encontrar corações. isso fez a Nath comentar que sente que talvez pela arte cutucar tanto em nós ela, a arte, consequentemente consegue reverberar em outros cantos. cantos nossos e de outras pessoas.

"a sensação de alcançar outras pessoas, outros espaços e outras vidas é muito especial e particular pra mim, e até antes de iniciar esse processo de compartilhar escritos, fotografias e autorretratos eu não tinha (e nem tenho) a dimensão de até onde a arte pode chegar. alcança lugares tão particulares e desconhecidos. toca as pessoas de formas tão diferentes. em pontos tão únicos. penso sobre como colocar criações artísticas no mundo, principalmente no mundo que a gente vive hoje, seja o mais próximo possível do toque. e eu sou encantada pela ideia de tocar de forma não física", afirma.

ainda sobre arte, Nathalia diz que enxerga e sente tudo como "uma forma de ser, uma forma de toque que ultrapassa essa barreira do palpável e do sentido. do físico e do dizível. como se não ter palavras fosse presentificar alguma coisa que falta, que não se preenche". 


eu nunca sei concluir uma prosa, pois sempre fico sem fôlego. toda troca que aparece aqui no blog é especial demais para o meu coração. sempre é uma poesia do encontro. não sei se escrevo na mesma altura que essas pessoas incríveis merecem, mas o meu intuito é que você que passa por aqui se sinta acolhido tanto quanto eu me sinto.

conheçam os escritos e fotografias verbovisuais da Nathalia lá em seu perfil no Instagram.

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