novembro 05, 2020

"a love song for Latasha", um documentário de Sophia Nahli Allison

não saio ilesa após assistir Uma canção para Latasha. não saio porque me doeu ter que associar tantos acontecimentos, tanta injustiça, tantas feridas. 


o documentário de Sophia Allison, produção Netflix, foi lançado em setembro de 2020 e faz menção à jovem Latasha Harlins, que aos 15 anos foi brutalmente assassinada por Soon Da Ju, dona de um estabelecimento na região de Koreantown, em Los Angeles.


não sei de perto e nem posso imaginar quão difícil deve ser você sofrer por sua cor, por sua condição financeira; por duvidarem de você por ser você. o que eu posso, e tenho esse dever, é também discutir sobre todas essas questões para que histórias como a de Latasha não sejam esquecidas e diminuídas. quando li O perigo de uma história única, autoria de Chimamanda Adichie, fui reafirmando que histórias importam e, como trouxe Adichie, "histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar [...]. histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida". então eu quero que vocês conheçam Latasha Harlins.



o documentário A love song for Latasha traz a história de uma jovem através das fotografias, vivências e memórias da época em que ela viveu. das amizades às frequentes visitas aos jogos de basquete nas quadras do bairro, Harlins sonhava com uma vida em que se podia viver sem exclusões determinadas por sua cor. sua prima Shinese conta que Latasha era a mais responsável dos irmãos. os penteava, os levava ao parque, às lojas e assumiu o cuidado de todos auxiliando a sua avó.

Latasha nasceu no estado de Illinois em janeiro de 1976 e sonhava em ser advogada. somente em 1981 se mudou para Los Angeles ao lado de Vester e Christina, seus irmãos mais novos, e na companhia de seu pai que arrumara um novo emprego. 

"a gente tinha que acordar muito cedo. tinha que acordar no horário certinho pra conseguir pegar o ônibus de Manschester até Westchester, que era longe. depois da aula os ônibus estavam cheios, todos no fundo, falando besteiras, o que fazia o tempo passar mais rápido. descíamos e parávamos no Tam's Burger. minha avó nos dava dois, três dólares por dia. naquela época existiam pequenas jukeboxes que ficavam em cada mesa e você podia escolher músicas. nossa música favorita era Stand By Me", conta Shinese.


a perda precoce da mãe fez Latasha se voltar aos estudos e buscar em seus sonhos um motivo a mais para continuar se esforçando. a prima conta que o seu sonho de ser advogada se estendeu também, pois Harlins queria fornecer um conforto para sua avó. ela se ocupava e se concentrava na escola, o que permitia a obtenção de notas altas constantes. ela se esforçava e não queria virar estatística, diz Shinese. 

o terrível momento aconteceu num sábado pela manhã. sua prima conta que a avó pediu para que uma das crianças fosse ao mercado, então Latasha atendeu ao pedido, mas ao entrar e escolher a bebida (um suco de laranja) foi covardemente assassinada numa manhã de março de 1991. as câmeras da conveniência Vermont Vista mostraram quando a menina chegou, pegou o suco (que custava menos de dois dólares) e recebeu o disparo à queima roupa de Soon Ja Du, dona do local. 

"em 15 de novembro de 1991, então, o júri considerou Soon Ja Du culpada de homicídio a sentenciou a 16 anos de prisão. a juíza branca Joyce Karlin, contudo, discordou da decisão e converteu a sentença da coreana para cinco anos de liberdade condicional e 400 de horas de trabalho voluntário"trecho do texto de Pamela Malva para Aventuras na História

fica claro no documentário que não foi a primeira vez que a assassina ameaçou crianças no bairro com uma arma. isso é tão claro que a própria Latasha já havia sido ameaçada, mas não ligou muito, pois duvidou que aquela senhora seria capaz de fazer algo do tipo.

A love song for Latasha é uma carta afetuosa à memória de uma menina que muito sonhou e fez. a fotografia é incrível e atenta aos detalhes da década de 1990. os elementos de fitas VHS, ruídos, luzes nos levam à imersão numa época em LA onde aquela família também sonhou. por isso quero concluir o texto usando o trecho final dessa produção para transmitir (na verdade tentar) a força que Latasha Harlins deixou.

"ela era consciente da sua cor e a aceitava. "somos rainhas", ela falava. "a única maneira de nos tratarmos como rainhas é se nos comportarmos como rainhas. posso fazer qualquer coisa que eu me propuser a fazer. minha mãe me dizia isso, então eu aceito isso". essa era a motivação dela. o que dava força a ela. você é tão forte. de onde vem essa força? e novamente somos filhos, somos crianças".


o assassinato de Latasha foi o causador pelos distúrbios de Los Angeles, em abril de 1992. após a sua morte, fora fundado o Comitê de Justiça Latasha Harlins por iniciativa de sua tia Denise Harlins (1963-2018). hoje, Ty, amigo de infância de Latasha, pretende criar uma organização no centro-sul de LA para jovens da comunidade em memória de Latasha.

2 comentários

  1. Que história comovente. Fiquei curioso pra assistir.

    Bom fim de semana!

    Jovem Jornalista
    Instagram

    Até mais, Emerson Garcia

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  2. Uau! Não conhecia a história e agora estou impactada e curiosa.
    I m p r e s s i o n a n t e ♡

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