março 18, 2021

fotógrafas de rua e outros diálogos

buscar entender sobre imagens e feminismos foi (e continua sendo) renovador para mim. 


lembro bem que em um encontro online com outras mulheres discutimos a dissertação de Benjamin Alcántara chamada Paradoxos na representação documental. O trabalho fotográfico de Maya Goded” - tradução livre. com a pesquisa, o autor discutiu, inicialmente, o sentido da fotografia documental no início do século XX para a política dos Estados Unidos. da 'grande depressão' até a criação de planos para a tentativa de reativação econômica, esses programas foram bem mais conhecidos por conta da fotografia do que pelos seus próprios feitos. as imagens eram construídas e distribuídas com um cunho ideológico específico, aquele em que se abordava as situações de miséria em uma ótica colonialista, de superioridade e que se distanciava do sujeito-objeto sem nenhum compromisso com essa realidade.


“textos como os de Susan Sontag, Allan Sekula e também Martha Rosler, colocam o dedo na ferida, mostrando os abusos e a incoerência de muitos trabalhos documentais, que se valem do poder de estar por trás de uma câmera e se aproveitam de situações degradantes, as representam esteticamente, e as apresentam em contextos artísticos disfarçados de crítica social”, expõe Alcántara.


esse estudo foi necessário para que eu entendesse qual o solo (ou melhor, um dos) em que a fotografia se formou na História. hoje, apesar das preciosidades que o caminho mostra, outros pontos (me) gritam que temos muito o que discutir. discussões como: é fácil construir uma imagem? será que é comum sair com um material para a rua e se sentir seguro ao fazer isso? a resposta é simples e complexa, pois (imagine esse pois em negrito, caixa alta e cores chamativas) vai depender para quem você está fazendo essa pergunta. 


estou no Brasil, em Maceió, capital de Alagoas. é inegável a importância da cidade para a construção da História e também para a memória das pessoas. no texto que agora escrevo falo enquanto mulher. pessoa que ama fazer imagem. no entanto, que dois dias antes de sair de casa para registrar o acaso das ruas pensa no que pode acontecer caso seja roubada, assediada (etc etc etc). ou quando, ainda no trajeto, vai retirando a câmera cuidadosamente da sua capa para deixá-la o mais alcançável (e discreta) possível durante os segundos que tem para fotografar. 


aqui, quando chego em casa (depois de muito comemorar), percebo que outra cena foi formada no fim de cada registro - tudo bem diferente do que pensei. me agarro a esse resultado na certeza de que ele também importa, já que registrar a rua depende muito daquilo que é inesperado. esse ponto é mágico, porém, ser mulher e registrar a rua traz um acaso diferente. é o acaso de quem teme estar ali. isso não é bonito, não é poético. nunca foi. 


fico imaginando as mulheres que vieram antes de mim. as ruas que elas ocuparam com uma câmera na mão. os olhares que as encaravam, algum receio que elas sentiram. tudo isso me reforça: a imagem não teria sentido sem as mulheres que vieram antes e deixaram o seu olhar na História. quando as contemplo sinto elas soprarem à minha alma: "estamos juntas". 


às que fizeram, às que foram silenciadas, aquelas que fazem e farão imagem... a publicação de hoje é para vocês. e abaixo, nomes que movem e me iluminam. nomes que são sopro de força, poder e amor durante a caminhada. afinal, a rua também é nossa. 



helen levitt // conhecida como a poetiza da fotografia, Helen registrou as ruas de Nova Iorque durante muitas décadas. o olhar de Helen acolheu crianças e o acaso nova-iorquino com sensibilidade.









vivian maier // nascida em Nova Iorque no ano de 1926, Maier fez inúmeros registros do cotidiano. das fotografias de rua estadunidenses às de viagens feitas, Maier também dedicou boa parte da sua vida ao trabalho de babá e até a sua morte nada se sabia sobre as suas fotografias, pois ficavam guardadas. 








berenice abbott // nascida em Ohio, nos Estados Unidos, Abbott ficou conhecida por registrar prédios e o movimento urbano durante muitas décadas. a fotógrafa foi a primeira mulher a ser admitida na Academia Americana de Artes e Letras.









lisette model // fotógrafa de rua, Lisette foi uma austríaca americana nascida em 1901. ensinou na New School for Social Research, em Nova Iorque, no período de 1951 até 1983, ano da sua morte.






vitória de alencar // também conhecida como Power Vitória, se dedica às artes visuais e tem formação acadêmica em Jornalismo pela Ufal. integra o grupo de estudos Imagens e Feminismos (GIF) e é cofundadora do Punho Coletivo, o primeiro coletivo de mulheres da imagem de Alagoas. os registros urbanos de Vitória caminham entre os analógicos e digitais. falo com afeto o tanto que o olhar dela me lembra o de Vivian Maier. 







júlia paredes // pesquisadora em Antropologia Visual e graduanda em Ciências Sociais, Júlia documenta o cotidiano maceioense. a sua série fotográfica mais recente se chama trilhos urbanos (e sou apaixonada por cada retrato).







"o tempo em degredo falará
dos roteiros esquecidos
de cada mulher
abismo de se saber sozinha
e, todavia, ressoar"  neide archanjo


5 comentários

  1. Que texto lindo, Laryssa! Obrigada por me incluir nessa lista. Admiro muito as mulheres que foram citadas, assim como admiro você. <3

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  2. Encantada pelo trabalho sensível e tocante dessas mulheres incríveis. UAU

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  3. Caramba que post lindo ♥
    Amei as fotos!
    E muito incrível estudar a saber mais sobre as mulheres nas artes, no mundo.
    Amei cada registro!

    https://www.heyimwiththeband.com.br/

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  4. que post perfeito, sério!
    eu amei o tema da dissertação, vou lê-la.
    nossa, eu sempre gostei muito de fotografia de rua, mas sempre senti esse medo do qual você fala. nunca ousei levar a câmera na mochila e, até mesmo com o celular, eu me sinto desconfortável de fotografar, pois tem todos os olhares voltados pra nós.
    sou apaixonada por conhecer o trabalho de mulheres dentro da fotografia, muito muito muito obrigada pelas indicações ♡

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  5. Amei as indicações, Lary! A única exposição que consegui visitar no ano passado foi a da Vivian Maier. Uma delícia ver as fotos dela impressas e grandes.

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