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"só garotos", um livro de patti smith

gostei muito dessa foto que fiz da biblioteca da cidade. os livros separados para a organização, a luz do espaço; tudo. achei que esse registro combinaria com a publicação sobre o livro & autora de hoje.

 

Patti Smith é uma artista multi norte-americana que eu conheci através das palavras de uma amiga, a Ka. dentre as obras da escritora, o livro "só garotos" me apareceu e narra fases, entre altos e baixos, marcantes da vida da artista.

antes de ler algum livro, gosto de advinhar o que aquela obra quer dizer. olho a capa, o título. e por não conhecer a Patti, imaginei que eu fosse lidar com páginas infinitas de um romance vivido na adolescência. tipo um romance como qualquer outro.


Smith me mostrou um amor difícil e isso, confesso, me trouxe alguns incômodos - mas esse sentimento, essa forma de amar, logo foi compreendida por aqui e me ajudou a administrar o que senti.


ela jovem, pronta para tentar descobrir quem se é. ela jovem, se vê artista. se observa desenhista, escritora, modelo, fotógrafa. se viu sempre sonhadora, mesmo que em alguns momentos a vida lhe fizesse duvidar se seria ou não capaz de ir para algum lugar. acho que foi esse ponto aqui que a autora "me olhou", já que essa vontade de fazer tudo por vezes habita em mim (e isso tá longe de ser romântico).

 

crescida numa família modesta de Nova Jersey, Patti trabalhou em uma fábrica e entregou seu primeiro filho para adoção, antes de se mandar para Nova York, com vinte anos, um livro de Rimbaud na mala e nada no bolso. era o final dos anos 1960, e Patti teve de se virar como pôde: morou nas ruas de Manhattan, dividiu comida com um mendigo, trabalhou e dormiu em livrarias e até roubou os colegas de trabalho, enquanto conhecia boa parte dos aspirantes a artistas que partilhavam a atmosfera contestadora do famoso "verão do amor". foi então que conheceu o rapaz de cachos bastos que seria sua primeira grande paixão: o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem Patti prometeu escrever este livro, antes que ele morresse de aids, em 1989 / resumo disponível no site oficial do grupo Companhia das Letras


eu tive a impressão de que Patti abraçou o mundo. abraçava até quando achava que não podia. para ela, conhecer Robert foi um acaso feliz. mesmo que em alguns momentos ambos vivessem desencontros com seus sentimentos, eu entendi que eles estavam dispostos a nunca deixar a amizade ficar em segundo plano. só que eu via essa forma de amar muito torta e por vezes abusiva. isso me incomodou e me fez parar de ler um pouco para refletir sobre relacionamentos. por outro lado, foi aí que achei entender a essência do livro. a obra não é um romance, não é sobre amores dispostos um ao outro da forma mais legal possível. o livro é sobre a história real de amigos que sonharam e amaram. amaram tudo e a muitos. 


Patti e Robert eram um, mesmo longe quando perto. 


"nos períodos em que me sentia por baixo, perguntava-me qual era o sentido em criar arte. para quem? estávamos animando Deus? estávamos falando com nós mesmos? e qual era a meta final? ter a própria obra engaiolada nos grandes zoológicos da arte — o Modern, o Met, o Louvre? 

eu ansiava por honestidade, mas encontrava desonestidade em mim mesma. por que se comprometer com a arte? pela autorrealização ou pela arte em si mesma? parecia um capricho somar-se à massa de excessos, a não ser que isso oferecesse iluminação. muitas vezes eu me sentava e tentava escrever ou desenhar, mas toda aquela agitação maníaca nas ruas, somada à Guerra do Vietnã, fazia meus esforços parecerem sem sentido. eu não conseguia me identificar com movimentos políticos. quando tentava participar de algum, sentia-me tomada por outra forma de burocracia. perguntava-me se alguma coisa que fazia tinha importância"


tenho a impressão de que ver a vida por vários ângulos e formas me faz amar biografias. Patti só me mostrou isso. estamos de passagem. precisamos fazer algo que nos impulsione. um detalhe sequer. uma ponta inspiradora. quando ela disse que gostava de pegar folhas e desenhar cenas da sua vida eu parecia estar me lendo. criar, mesmo que com nossos medos e desesperos. apenas criar. foi o que Patti deixou.


"só garotos" não é um romance, mas é um livro sobre amor.  amar a tudo. coisas, pessoas, momentos. ou seja lá o que você ache que mereça o seu amor.

 



ficha do livro / título original: Just kids  páginas: 280 lançamento: 25/11/2010 selo: Companhia das Letras


 vejo vocês em breve.

3 comentários

  1. AHHH nem acredito! É a minha leitura atual, inclusive já destaquei essa frase da quote do post haha! Ainda não alcancei a metade mas, já sinto certa identificação com os questionamentos da autora sobre a própria trajetória artística.
    Gostei muito da sua análise da obra!
    Beijos

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  2. Já tem quase 5 anos que li esse livro e lembro que não foi um livro fácil de ler. Afinal, a trajetória também é feita de perrengues neh? Criar por criar, amar por amar. Ando tendo esses mesmos questionamentos, "perguntava-me se alguma coisa que fazia tinha importância". Quero ler os outros livros dela e bem antes de me envolver mais com Patti, tive a oportunidade de vê-la ao vivo no Tim Festival de 2006. Amo muito as fotos que o Mapplethorpe fez dela, uma grande inspiração. <3 Amei suas reflexões sobre o livro. Recomendo o disco "Easter" caso não tenha se jogado ainda nas músicas dela. Beijos!

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  3. Nunca tinha ouvido falar do livro antes e ler suas impressões e experiência é surpreendente. Gosto tanto da forma como fala de uma obra, há tanto carinho, ainda que não seja uma história tão leve. Senti ser uma biografia forte, o que é interessante demais.
    Amo ler suas reflexões, Lary!

    Abraços,
    Any.
    Poetiza-te

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