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hoje, a mulher com a câmera na mão sou eu

foto minha; março 2021 

Fui fazer arrumações no computador e achei uma nota suspeita, cujo título do arquivo se chamava "jlkjljm". Fiquei me perguntando quando salvei aquilo e o que tinha ali dentro. Abri. 

"19/10/2018 – Alguns momentos são mais reflexivos do que outros, mas quase sempre retornamos para o mesmo lugar. Engraçado que, anos atrás, meu maior desejo era estar exatamente onde agora estou: notebook nas pernas, mesa no quarto, uma aquarela maneira e uma lente nova para fotografar"

Lembrei que houve um momento específico da minha vida em que comecei a pensar quantas foram as mulheres que quiserem conhecer a fotografia, mas não puderam. Eu estava na faculdade, por volta de 2016, quando vi que eu queria ir para outra área. Não por detestar a minha graduação (a qual me formei), mas por querer descobrir mais sobre o que a imagem (fotografia/audiovisual) tinha para me ensinar. Eu amava fotografar desde a adolescência, mas não consegui decidir em meses o que eu queria para a vida (e quem consegue?).

Foi só em 2019 que comecei a colocar alguns desejos para frente e timidamente entrei em rodas de conversas sobre o assunto. Naqueles momentos eu continuava refletindo sobre quem espreitou a imagem. Em quem, com os sentidos atentos, pôde perceber que a fotografia estava ali, mas nada pôde fazer; nada pôde criar. E passando por todas as décadas, quem hoje observa atenta a fotografia, mas nada pode fazer. É que pensar a fotografia é caro e por vezes desanimador. Entristece, cala, dói, machuca; mas também salva. Gosto de pensar a imagem como salvação. Como fotógrafa, sei que temos que falar da fotografia e suas possibilidades. Falar sobre imagem não é só mostrar sobre o material novo (e caro) que você conseguiu comprar. Vai muito além, sabe?

Historicamente, Anna Atkins (1799-1871) ficou conhecida por fotografar sem câmera. Gosto de citá-la ao fazer reflexões sobre mulheres e a imagem. Anna usava a cianotipia para catalogar a botânica e até hoje é lembrada nos métodos de colagem. Toda vez que rasgo algum papel e penso em poesia, Anna vem em minha mente. Fico pensando no livro à mão que ela precisou construir, mas que só foi amplamente divulgado na década de 1970. Nesse momento eu paro, repenso e fico querendo saber quem teve a mesma vontade que a dela, mas nada pôde fazer.

Por outro lado, eu penso que ser uma mulher com uma câmera na mão (ou pelo menos ter a vontade de ter uma câmera), para além desses momentos difíceis, me dá a oportunidade de hoje refletir sobre coisas que eu nem sabia como pensar. Já temi dizer que sou fotógrafa e artista visual, hoje não. Devo essa coragem às mulheres que li e outras que convivi. Aos coletivos que descobri, ao Punho que integro. Se hoje eu consigo perceber a fotografia é porque outras mulheres a perceberam e me iluminaram primeiro.

Um comentário

  1. É bem isso aí mesmo, Lary. Há tanta reflexão antes da imagem ser de fato materializada neh? Adoro pensar a fotografia, o olhar. Muitas vezes acabo pensando mais do que fazendo fotos de fato. Esses seus escritos me dão aquele quentinho no peito de quem não está sozinha, tem mais gente como eu por aí. Que bom que a internet dá essa oportunidade pra gente.

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