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palavras que saem do coração e uma prosa com a Flora, idealizadora do Aondes

Durante esses anos registrando a vida muitas pessoas foram aparecendo e me ajudando a observar a existência de forma lenta e afetuosa. Foi através do blog que conheci (e continuo conhecendo) pessoas do mundo inteiro que de maneiras diferentes me ajudam a compreender como a escrita e a fotografia agem para o nosso bem. 

Nesse sentido todo, um blog chamado Aondes me foi apresentado no Instagram anos atrás. Lá, eu vi um espaço repleto de imagens sobre vida e viagens, eu li palavras sobre como detalhes cotidianos podem ser bons. De imediato rolou uma identificação e até hoje não me distanciei daquele blog, criado tão afetuosamente pela Flora e pelo Le. 

Essa parte de escrever sobre a vida é a coisa mais legal da blogsfera. Você eterniza sensações e isso me faz repetir diversas vezes sobre o quanto estar aqui é especial. É com alegria que trago a Flora para uma conversa linda sobre a vida, lugares e mudanças. 

Me fala sobre você. Como teve início a sua relação com a leitura e a escrita? O que lhe incentivou a ir além do lugar de leitora até criar um blog e de que forma o Aondes mudou a sua forma de ver a vida? 

Quando eu penso na leitura e até na escrita, sinto que preciso voltar muito tempo lá atrás onde eu enxergava o mundo com um olhar muito mágico, no meu quintal cheio de árvores, que eu acreditava ser o mundo todo. Eu acho que fui uma criança um pouco solitária, talvez não por estar sozinha, mas por sentir que as pessoas ao meu redor não me entendiam. Acredito que isso me fez muito sonhadora e fantasiosa. Eu sempre gostei de imaginar mundos e situações, e a leitura veio ao encontro dessa minha necessidade de estar em outros lugares ou de sentir que tinha alguém no mundo que entendia meus sentimentos. Quão mágico é ler palavras que parecem que saíram de dentro do seu coração? Naqueles momentos existia um encontro e eu me sentia pertencendo. Não sei bem quando a escrita entrou em minha vida, mas eu sempre escrevi cartas para as pessoas, também na tentativa de exprimir os meus sentimentos... Aliás, eu sou uma pessoa que sente muito. A leitura e a escrita me ajudam nesse processo de entender e explorar o meu sentir.

O Aondes também surgiu de uma falta. Assim como a leitura entrou para preencher um vazio, a ideia de criar um blog foi para me aproximar de pessoas. Eu queria conhecer pessoas que também amavam viajar, que tinham um olhar sobre a vida parecido com o meu e que pudessem se conectar comigo. Eu e o Le - meu marido - líamos muitos blogs para programar nossas viagens e isso sempre nos ajudou muito. Então pensei: "por que não ajudar outras pessoas com nossas dicas de viagens também?". Naquele momento eu não sabia que o Aondes se tornaria muito mais do que isso. Ele viria a se tornar a minha expressão no mundo, em tantos aspectos! Mas foi assim que começou, com o compartilhamento de nossas impressões sobre os lugares por onde passamos e dos que tínhamos o anseio de ir, a fim de ajudar pessoas que também os quisessem conhecer e de nos conectar com elas... Conforme eu fui encontrando pessoas que gostavam das coisas que eu dizia, que gostavam das minhas fotos e do meu jeito de ser, eu fui me sentindo cada vez mais à vontade para compartilhar partes do meu coração. 

Hoje em dia o Aondes é um pedaço muito especial e importante da minha vida. Me ajuda a seguir, a entender meus processos, a olhar com mais atenção e ternura para as cenas simples do cotidiano, me permite sentir e expressar e, o mais importante de tudo, a me conectar com o outro. Eu descobri que meus sentimentos expressados em palavras podem tocar as pessoas e transformar a vida delas de alguma forma, do mesmo jeito que a leitura sempre fez comigo. Poucas coisas no mundo são tão especiais quanto esses encontros. 

O Aondes também contempla livros e filmes. De qual (quais) obra (obras) você falaria por muito tempo sem cansar? Por qual motivo?

Agora você me pegou! Eu tenho muita dificuldade em escolher coisas favoritas. As vezes sinto que tenho o mundo todo dentro de mim. Eu me interesso por muitas coisas diferentes ao mesmo tempo. Mas eu sempre sou inclinada a gostar de obras que são mais profundas, que tocam a alma, que me fazem chorar e sentir muito. Que são poéticas, que me tragam lições e mensagens transformadoras. Eu sou a pessoa que precisa parar o filme pra chorar abraçada com a almofada e depois dar o play de novo. Naquele momento, eu amo me deixar atingir pelas dores do outro e sentir profundamente o que ele poderia ter sentido. Para não ser tão difícil pra eu escolher, falarei dos últimos que consumi e que me arrebataram o peito. Livros, “Torto Arado” de Itamar Vieira Júnior e “Eu Sei Por Que O Pássaro Canta na Gaiola” da Maya Angelou. Filmes, “Ela (ou “Her”) e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (esse já assisti muitas vezes, rs). São obras de temáticas importantes, a meu ver, e que são transmidas dessa forma poética, lúdica e que tocam nosso coração de forma muito profunda.














Para qual lugar  visitado você voltaria? O que mais te encantou por lá?

Essa é uma pergunta difícil... Todos os lugares aos quais fomos me encantaram e tocaram de formas diferentes. Eu sempre me pergunto quais seriam os sentimentos se eu voltasse para algum desses lugares, pois a gente nunca conseguiria voltar àqueles momentos e sermos os mesmos que fomos quando vivemos aquilo. É como reler um livro. Apesar de ser o mesmo, será sempre diferente. 

Eu poderia falar aqui da Islândia - que foi o lugar mais surreal que já fomos e ao qual com certeza quero voltar - ou Noruega, pela sua natureza exuberante e pelo tanto que eu ainda queria conhecer desse país (e ver a Aurora Boreal!). Poderia falar da Itália, que tocou tanto nossos corações que estamos até nos mudando pra lá! rs. Mas, por algum motivo, quando li sua pergunta, senti que queria voltar para fazer novamente a primeira viagem que eu e o Le fizemos juntos, que foi para o Chile. Foi nessa viagem que um sentimento maravilhoso despertou em nós: o de querer explorar o quanto pudéssemos do mundo. Essa paixão por conhecer novos lugares arrebatou nossos corações. Foi lá que a gente entendeu o que mais queríamos fazer como um casal. E onde fizemos uma promessa: iríamos juntar as nossas forças e dedicar todos os nossos esforços diários para nos proporcionar momentos de êxtase como aqueles, em que você sente que acabou de nascer e o mundo se torna um lugar novo e desconhecido e você é só um grãozinho de areia, minúsculo, com tudo ainda por aprender. Essa sensação de frescor de vida.

Eu voltaria para a cidade de Puerto Natales, andaria de mãos dadas com o Le pela praça central no pôr do sol, sentindo o vento fresco e ouvindo as gaivotas que voam baixo. Sentaria no banquinho em frente a loja onde ele comprou um pingente para me pedir em casamento e depois entraria no Mesita Grande e pediria o inesquecível nhoque com salmão, uma cerveja para brindar o nosso retorno e de sobremesa, o também inesquecível brownie de chocolate. É. Se eu pudesse eu faria isso. 

Você e o Le acreditam que ouvir mais histórias através do projeto "Venturas" complementou o desejo de vocês se mudarem para a Itália?

Eu estava tomando banho e pensei “vou entrevistar em live pessoas que moram em outros países para nos ajudar e ajudar as pessoas que também querem se mudar”. Saí do banho e me toquei que eu nunca conseguiria fazer uma live. Entrei em crise por isso, pois foi algo que veio tão certo dentro do meu coração. 

Eu queria fazer, mas eu não tinha coragem ainda. Conversei com uma amiga querida que fiz pelo Aondes, que viria a ser uma das entrevistadas e ela adorou a ideia. Super apoiou! Mas eu ainda demoraria uns seis meses para colocar em prática. Nesse tempo eu engavetei a ideia por puro e simples medo e deixei-a lá, quietinha. Até que um dia surgiu muito forte a vontade de novo e pensei: “por que eu vou deixar de ajudar outras pessoas e a mim mesma por medo de aparecer ao vivo?”. Coloquei esse pensamento para dentro de mim, que não importava o resultado, eu só queria fazer algo de bom pro mundo. Eu já tinha a listinha das pessoas que queria convidar desde o primeiro dia que pensei sobre isso. E, meio no impulso, pedi pro Le me ajudar a pensar em um nome - ele é ótimo nisso. Aliás, Aondes também nasceu dele. Depois que ele me deu de presente o nome Venturas, eu desenhei à mão o ‘logo’, estruturei a ideia principal e saí enviando os convites. Todos adoraram e aceitaram. Fiquei tão feliz! Foi uma vitória pessoal me desafiar a fazer algo que eu não tinha confiança, sabe?

Ter a oportunidade de ouvir as histórias foi MUITO especial. Muito mais do que esperávamos. Mesmo conversando com essas pessoas com certa frequência, nunca tínhamos ido tão a fundo a suas histórias - seria muito estranho eu ficar perguntando tantas coisas pessoais, em detalhes rs. Com o Venturas, tivemos essa chance incrível de ter o tempo delas doado com tanto carinho para responder todas as nossas dúvidas e curiosidades. De cada entrevista eu tirei lições preciosissimas que carregarei comigo sempre.

"É preciso ter em mente que a vida de cada um é muito diferente. Nesse processo todo é muito perigoso nos prendermos às experiências dos outros para basearmos a nossa. Cada um viverá situações completamente diferentes. Mas também existem os pontos em comum. E é aí que a gente ganha muito quanto troca com o outro. Essa conexão que tanto nos acrescenta. Com certeza complementou o desejo de vivermos a nossa experiência o quanto antes for possível"

Qual a parte mais bonita do processo de mudança de país que você e o Le têm vivido? Sei que a pandemia atravessou tudo isso e ainda nos deixa marcas, por isso não mencionei ela por aqui. Tudo já anda não doloroso que seria injusto concentrar isso aqui também. Você consegue imaginar de alguma maneira qual a primeira coisa que você deseja escrever quando chegar à Itália? 

Sim, a pandemia nos atravessou mesmo e nunca poderemos romantizar essa tragédia. Tirando toda a complexidade, os estragos e traumas - alguns deles irreparáveis - da pandemia e olhando somente para esse momento específico e particular do nosso processo de mudança, existem partes bonitas sim e acho que a principal é o quanto temos nos transformado e crescido. Propor-se a deixar tudo que é conhecido pra você e jogar-se num mar de incertezas pode trazer muitos sentimentos. Alguns ruins, incômodos e outros muito bons.

Estamos prestes a realizar um sonho de vida e essa sensação por si só já é muito excitante! Da parte que incomoda, mas que também nos acrescenta, tenho aprendido a olhar com outros olhos para os vazios que vão se formando. Esses dias li alguma frase neste sentido, de que era preciso criar vazios para existir novos preenchimentos. Sinto que estamos fazendo isso, abrindo espaço na nossa vida para o novo acontecer. Também tem sido bonito perceber que a minha verdadeira casa é interna e que eu não necessariamente preciso dessas paredes que me rodeiam hoje para me sentir protegida e segura.

E, sobre sua última pergunta, eu sorri quando a li. Me imaginei em algum café bem intimista, encantada com tudo ao meu redor: o idioma melodioso sendo falado pelo senhor que pede o seu cornetti alla crema e seu caffè macchiato. O ritmo de vida lento, estampado nos gestos daquele que lê um jornal na mesa mais próxima da minha ou a belíssima mulher que passou rápido pela janela, deixando somente o vulto da sua bicicleta marrom cheia de flores no cesto. Acho que nesse momento eu vou escrever sobre como meu coração está em paz. 




Espero muito que vocês tenham gostado de conhecer a Flora e o tanto de detalhe bonito que ela trouxe ao Poético Diário hoje. Enquanto eu escrevi, me identifiquei bastante com as coisas que ela citou.  É muito bom quando alguém que admiramos abraça  nossos projetos também. Já aproveito pra agradecê-la novamente por ter topado aparecer e me autorizar a falar de projetos e fases novas que ela está vivendo junto com o Le <3 Abaixo, links do Aondes por vários lugares da internet para vocês acompanharem também:

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3 comentários

  1. Que legal que voltou com as entrevistas, Lary! Me identifiquei demais com isso aqui "Eu sempre gostei de imaginar mundos e situações, e a leitura veio ao encontro dessa minha necessidade de estar em outros lugares ou de sentir que tinha alguém no mundo que entendia meus sentimentos. Quão mágico é ler palavras que parecem que saíram de dentro do seu coração?". Eu era essa criança tb e tinha essa mesma relação com os filmes. Adorei conhecer mais da Flora. Já tinha entrado no blog dela, mas preciso dedicar um tempo maior para consumir tudo com calma. Esse post foi um ótimo lembrete.

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    1. oi, alê! saber que você se identificou com as falas da Flora me deixa muito contente porque aqui rolou esse sentimento também <3 se eu pudesse escolher uma atividade da infância falaria sobre leitura. eu brincava de ser professora e amava! que bom que as palavras encontraram você em algum momento também. um abraço, viu?

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  2. Que entrevista mais inspiradora e cheia de curiosidades. Adorei.

    Boa semana!

    Jovem Jornalista
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    Até mais, Emerson Garcia

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