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torto arado, obra de itamar vieira junior

[…] se eu soubesse que tudo que se passa em meus pensamentos, essa procissão de lembranças enquanto meu cabelo vai se tornando branco, serviria de coisa valiosa para quem quer que fosse, teria me empenhado em escrever da melhor forma que pudesse. Teria comprado cadernos com o dinheiro das coisas que vendia na feira, e os teria enchido das palavras que não me saem da cabeça

foto autoral durante um encontro literário com Aylla, a amiga que me apresentou Torto Arado;

Eu nunca sei o que escrever quando um livro me embala afetivamente. As palavras faltam ou esqueço de quais formas posso descrevê-lo até que outras pessoas percebam o que senti.

A leitura de Torto Arado foi um espelho familiar por aqui. Chorei muitas vezes por me identificar com os capítulos. Emocionei com o choro descrito, com o grito narrado, sorri por imaginar realidades que não vi. No fim, eu sinto que abraçamos os livros na medida como sentimos a vida. Talvez esse motivo sustente o meu afeto pela obra que trago e pelo mesmo motivo, penso que seja difícil para outras pessoas sentirem Torto Arado nessa mesma medida. 

"Nas profundezas do sertão baiano, as irmãs Bibiana e Belonísia encontram uma velha e misteriosa faca na mala guardada sob a cama da avó. Ocorre então um acidente. E para sempre suas vidas estarão ligadas — a ponto de uma precisar ser a voz da outra. Numa trama conduzida com maestria e com uma prosa melodiosa, o romance conta uma história de vida e morte, de combate e redenção", descrição de Torto Arado no site da Amazon
 
Sou neta de ex-funcionários de fazendeiro. Filha e sobrinha de quem trabalhou em troca de morada e comida. A lembrança dos meus foi moldada pelo chão do sertão alagoano, pelo som de animais e pela reza que iluminava as paredes de barro de um canto que foi lar. Eu conheci o meu passado assim, mas sempre foi difícil percebê-lo tão fielmente, afinal, eu nasci, cresci e continuo na capital. Ouço histórias que parecem distantes, mas que estão bem fincadas no que sou. A verdade é essa. 

A minha mãe sempre contou como funcionavam os povoados de Batalha/AL, e durante os meus 25 anos de vida eu nunca percebi as décadas passadas (anteriores a 1980) de uma maneira tão íntima como as descritas por Itamar. 

foto autoral do sertão alagoano / batalha, AL / 2017

A vida da família das irmãs de Bibiana e Belonísia descreve a memória de muitos outros povoados que ainda existem. Eu sinto que a obra se torna especial por esse motivo. Por conta da infância, do sonho, do cotidiano; do amor, da simplicidade. Mas também há o abandono, há o esquecimento puro e claro. Nesse sentido, Torto Arado é um lembrete. O livro nos pede olhos atentos e peito aberto para perceber que a realidade descrita pelo autor não está somente presa às páginas, mas fincada às histórias das pessoas, independente do tempo que passe por nós.

12 comentários

  1. Sua escrita é tão afetiva, Lary! <3

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  2. O comentário mais lindo que li até hoje sobre o livro. Já estava interessada na leitura, agora lerei com o peito ainda mais aberto. <3

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    1. obrigada pelo comentário lindo, Camila! espero que essa leitura te abrace de alguma maneira <3

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  3. meu deus do céu que post mais lindo!!!!!!!!!! "O livro nos pede olhos atentos e peito aberto para perceber que a realidade descrita pelo autor não está somente presa às páginas, mas fincada às histórias das pessoas, independente do tempo que passe por nós"

    INCRÍVEL.

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    1. ai, Ka!! que você possa sentir um pouco de afeto ao ler torto arado! <3

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  4. Um livrão do nosso Brasil!

    Boa semana!


    Jovem Jornalista
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    Até mais, Emerson Garcia

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  5. sabia que seria uma leitura especial pra tu também ❤ viva torto arado!

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    1. obrigada por me mostrar essa obra com tanto amor, amiga! viva torto arado!

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  6. Só ouço maravilhas sobre esse livro e é a primeira vez que tenho uma leve ideia do que ele se trata porque tenho tentado fugir dos spoilers. "eu sinto que abraçamos os livros na medida como sentimos a vida", já senti isso com um livro, pois os personagens sofriam e eu sofria junto porque tb estava sofrendo na vida e me abracei a ele. tb tenho família do sertão e cresci ouvindo as histórias de lá. mas meus parentes já moram há tanto tempo em capitais que às vezes acho que eles estão esquecendo de onde vieram. não sei se vou me envolver com essa história na mesma medida que você, mas estou curiosíssima. Post lindo como de costume.

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    1. alê, obrigada por tanto afeto <3 é sempre bom quando as palavras encontram a gente, né? principalmente quando as palavras nos mostram um pouco da nossa história. sinto que o livro me marcou por isso.

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